quarta-feira, 20 de outubro de 2010

José Carlos Sebe Bom Meihy

Meu caro Paulo de Tarso, cidadão taubateano, amigo.

Esta mensagem, ainda que escrita por mim é atestado de uma geração e de quantos se perfilam ao seu lado como parentes, amigos, parceiros. Letras e imagens se juntaram de formas plurais, mas sempre insatisfeitas por não dar conta da missão de falar na intimidade do significado de sua presença em nossas vidas. Precisei de seu exemplo de moço insistente para chegar a algum termo, ainda que imperfeito e merecedor de apagamento. A tarefa foi árdua, creia, e por mais que buscasse solução presumível, não conseguiria reproduzir o caleidoscópio tradutor de seu desenho em histórias compartilhadas. De toda forma, pensei, juntamente com Ana Laura e Luciano Dinamarco, em um inventário afetivo, depósito amoroso de frações, passagens de convívios costurados na vivência de tantos. Sua marca em cada pessoa constitui a vida deste texto que não existiria sem você.

Confesso minha temeridade frente à aventura de ser o repórter da aventura de muitos que, de uma forma ou outra, participaram de sua trajetória. Por tentativas repetidas, tudo ficava mais intricado na medida da palidez das palavras que, por mais que se combinassem, não dimensionavam a fecundidade de experimentos que afinal não são apenas seus. Ao fazer nossa a sua história ou sua a nossa, imaginei as cores possíveis para um desenho vivo que deveria fugir da frugalidade transparente na saudade antiga, na nostalgia encantada, em passagens pitorescas. Sobretudo, me pareceu dever retraçar a construção do respeito e dignidade, conseguidos pela luta de alguém que pagou para ver. Foi assim que se pensou em juntar recortes amigos que se perfilaram como atestado do que você representa para nós. Saiba que em todos que escreveram transpareceu o afeto admirado, o sentido histórico de ser parte do seu/nosso mundo. E se comemorar é “ação de compartir memória”, hoje a festa não é exclusiva sua. E há razões para tanto, posto que se insiste em evocações algo mitológicas, grandiloqüentes, reveladoras de seu significado que funde a figura pública e o amigo especialíssimo. Sobre você, tenha certeza, cada um tem uma história singular a ser narrada e assim, na delegação do Título de Cidadão Taubateano, conferido neste dia 19 de outubro de 2010, se interna mais do que a homenagem oportuna. Falo de justiça; de reparação também. Animando os motivos expressos no tributo que segue reside o reconhecimento de todos que o reconhecem como guerreiro incansável e o “taubateano” mais utopista da nossa turma.

A excepcionalidade da cerimônia de hoje inverte o correr dos dias comuns da aparente pacata Taubaté. Há motivos, pois não é qualquer pessoa que agora recebe a cidadania delegada pela nossa Câmara Municipal, cenário de tantas batalhas. Você, seguramente, merece mais do que ninguém o beijo cívico implicado no ato protocolar, mas não só. Ao contemplar hoje sua faina torna-se possível rever os caminhos trilhados por um conjunto completo de meninos que aprenderam a se tornar jovens e maduros no trajeto político de um país que passou pelo trauma da ditadura política e da superação que nos fez construir o caminho da liberdade. Diria, sem medo de equívoco, que você é a melhor estampa, metáfora perfeita do bom combate de taubateanos pela democracia. Assumamos desde logo dois predicados seus: 1- o retorno ao lar e 2- a insistência – por vezes incompreensível – pela liberdade de imprensa.

Sua presença em Taubaté, depois de tudo remonta a volta de um Ulisses que não se cansou da Odisséia. É como se prestasse conta de tudo que fez e assumisse o dever de olhar nos nossos olhos coletivos e dizer: fui, fiz e voltei. Imaginemos o que seria Taubaté sem você. Pensou?! Antes o menino rebelde, inquieto, travesso, namorador, fanfarrão, depois o agitador que avermelhou nossas esperanças e circulou sangue no sistema político nacional. Como ninguém, você assumiu uma proposta que tinha que ser radical. E foi por completo, inteiro, com tudo, sem medir forças, afetos, riscos. E levou nossa passividade ao limite do suportável. Paulo, voltar à “Terra de Lobato” (para usar sua expressão cara) me parece gesto exuberante de dignidade. Nossa Ithaca só tem a agradecer. Seu retorno foi como se fincasse no solo pessoal de cada taubateano, o estandarte de uma luta que, de certo modo, acabou sendo nossa porque filtrada em você. Na dor da prisão, saiba, muitos sofreram. As lágrimas de sua mãe, a dor de seu pai e irmãos, eram coletivas. Mesmos os detratores da liberdade sentiam em você o “nosso menino guerrilheiro”. Não resisto lembrar que até mesmo aquele delegado que nos atormentava se sentiu constrangido em não facilitar visitas e até trazer notícias que se espalhavam medrosas, mas sutis e insistentes. E foi para essa Taubaté que você voltou. Isto é memorável. Sempre falo com o Renato Teixeira dos dilemas dos que ficam X os que saem. Os que ficam, muitas vezes, sacrificam a dimensão de carreira; os que saem ganham alguma notoriedade e, entre uns e outros, você, que teria tudo para se engrandecer fora, preferiu voltar. Outro dia, pensando em você, concluí que a dose de água que lhe foi dada da Bica do Bugre foi exagerada.

Mas você não voltou como saiu. De maneira alguma. Não mesmo. Entre tantas coisas que padeceu, a lição que nos trouxe foi de aprendiz de negociador. Você se tornou doce mediador de causas inabaláveis, ainda que nem sempre oportunas. Ao trocar a luta pelo diálogo, juntou o guerreiro sonhador com o respeitável homem público que é. Primeiro insistiu na luta institucional e fez vigorar o que alguns diziam na surdina “ele é PT ao quadrado”. Era o Paulo de Tarso (PT) no Partido dos Trabalhadores (PT). Iniciais complexas se fundidas. Complexas e contraditórias na pauta do tempo. Outra vez o arquitetador visionário rendia tributo às linhas da ordem. Pensava você então que nos trilhos político-partidários seria viável mudar o país. Era outra tentativa. Ao constatar as artimanhas da política institucional, mediu o caminho das impossibilidades. Saldou a dívida com o caro salário do sonho aposentado. Continuou lutando, contudo, e sua voz ecoou ao denunciar, mesmo queimando o lugar que lhe poderia ser bem posto. Caríssimo, você negou e foi negado, mas... mas continuou lutando. Quixote birrento, você montou em outro cavalo e constituiu um Sancho Pança também coletivo e o eterno “Cavaleiro Solitário” resolveu virar jornalista.

Em sala pequena inventou o Contato e “contatando”, formulou a constante desculpa de que seria para o filho o jornal. Na realidade, o nosso guerreiro mudava de armas e assumia uma guerra doméstica. O campo de batalha variou para as letras e o cenário amplo se internou no local. O que jamais deixou de ser abdicado, porém, foram os valores essenciais: a luta pela democracia, pelo bem estar e pela boa política. E aqui a história do Paulo se fecha em círculo perfeito. O eterno retorno se justifica na trajetória de seu personagem ilustre: saiu de Taubaté, para Taubaté voltou; saiu lutador da democracia e para a democracia local voltou. Mudou as armas, variou o cenário. Só. Mas cumpriu-se nesse périplo uma meta redonda. É curioso como o círculo vale como figura ideal. Curioso, sobretudo porque é também a imagem do abraço que se lhe faz centro de uma roda; roda de amigos.

Paulo, emocionado termino esta mensagem que continua nas palavras de demais. Sei que você entende cada gesto inscrito neste esforço, mas saiba que, sobretudo, ele é apenas projeção do que você nos é. E continuará sendo agora, ainda mais TAUBATEANO.

José Carlos Sebe Bom Meihy

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